Como judeus praticaram sua fé após a Inquisição Espanhola?
Costumes e rituais únicos de cripto-judeus revelam raízes judaicas
Introdução
Conquistas
ao longo da história judaica foram substanciais e notáveis em todos os
relatos. Judeus são consistentemente incluídos
em números desproporcionais entre os grandes personagens da história nos
ramos da ciência, invenção, educação, política, direito, medicina,
artes visuais, indústria, filosofia, negócios e finanças. Estes incluem
figuras como Albert Einstein, Sigmund Freud,
Karl Marx, Salk Jonas, Albert Sabin, Spinoza Baruch, Marc Chagall,
Irving Berlin, George Gershwin, Leonard Bernstein, Steven Spielberg,
Arthur Miller, Herman Wouk, Philip Roth, Houdini, citando apenas alguns
poucos. Mais de 20% de todos os premiados do prêmio
Nobel até hoje foram judeus. Então, quantos judeus você acha que existem
em todo o mundo?
Em
2010 tinha um total de 13,4 milhões de judeus no mundo inteiro. Para a
maioria da pessoas, este número parece assustadoramente
baixo, uma vez que representa menos de
1/4
de 1% do total da população no mundo, 6 bilhões. No entanto, o fato de
que há mais de 13 milhões de judeus no mundo de
hoje é uma conquista incrível. Ao longo da história, antiga e moderna,
os judeus foram repetidamente perseguidos pelas Cruzadas, Inquisições,
"Pogroms", anti-semitismo e assassinatos em massa, todos os quais
contribuíram para diminuir o número de judeus, mas
nunca conseguiram acabar com a religião. Assim como, num recente
período, entre os anos 1933-1945,
o
regime nazista da Alemanha cometeu o genocídio sistemático de 6 milhões
de judeus europeus, eliminando assim 50% da população judaica mundial
em um terrível Holocausto.
Quem é considerado judeu?
De
acordo com a lei judaica, apenas uma criança nascida de uma mãe judia
ou um adulto que se converteu ao judaísmo é considerado
um judeu. Como princípio, a religião judaica proíbe a coversão de
não-judeus ao judaísmo, e só quem realmente provar que tem capacidade de
se "amarrar" a fé judaica, será aceito ao judaísmo. Você nunca ouviu
falar de uma cruzada judaica, porque nunca existiu
uma ou nunca poderia haver um fenômeno desses, e qualquer "missionário judeu" deve ser
visto com desconfiança, pois não são verdadeiros representantes da fé judaica.
Assim,
com exatas definições sobre quem é judeu, e sem conversões em massa de
populações de diferentes etnias, como os judeus
se manteram por mais de 5.000 anos, sujeitos a escravidão, a
perseguição, ao assassino em massa e a hostilidade de quase todas as
religiões que tentaram viver entre eles? E como eles conseguiram fazê-lo
sem mesmo ter um proprio país antes do renascimento do
Estado de Israel em 1948? Como é que o Judaísmo sobreviveu e como os
judeus sobreviveram?
Fundamentos da fé e tradição judaicas
A
resposta deste mistério que muitos têm tentado decifrar e que tem sido
objeto de muitas discussões ao longo dos anos requer
uma certa compreensão sobre a religião judaica. Como a resposta,
obviamente, não tem nada a ver com características peculiares físicas ou
mentais do povo judeu, a explicação está relacionada a este
indiscutível fato: ser judeu significa
pertencer a uma cultura onde estão fortemente entrelaçadas a religião, a tradição e a herança. Através
das
provações e dificuldades, os judeus continuaram a manter seus rituais
de fé intactos, juntamente com seus livros sagrados, seus feriados
religiosos, seu calendário, seus nomes judeus, seus valores, sua
herança, e seu desejo pela Terra Santa e seu Templo.
A
vida judaica permaneceu basicamente a mesma através das épocas e
migrações, com os mesmos rituais e tradições da vida diária,
apesar das diferentes sociedades e distintas línguas. Os judeus foram
dispersos na diáspora e, portanto, podem ser encontrados hoje em todos
os continentes e em quase todo os países do mundo, mas embora possam ter
estabelecido comunidades em países diferentes,
eles ainda estão profundamente ligados às suas raízes.
Contrariamente
a outras religiões, o judaísmo não tem dogma (doutrina), ou nenhum
conjunto de crenças formais obrigatórias
que se devem manter para ser um judeu. No judaísmo, as ações são muito
mais importantes do que as crenças, embora haja certamente um importante
lugar para a crença dentro do judaísmo. Na verdade, quando o espanhol
Maimônides elaborou seus 13 princípios básicos
da fé judaica no século XII, mesmo estes estavam sujeitos a controvérsia
e debate entre os rabinos. A cultura judaica não é apenas teórica ou
acadêmica, ela se dá
mais atenção às ações do que ao rigor das crenças ; tem as "Mitzvot" ou
"Mandamentos" ditados pela Torá (os 5 primeiros livros da Bíblia) e pelo
Talmud (a interpretação oral da Bíblia), abrangendo todas as áreas da
vida, a pessoal, a familiar e a comunitária.
Estas
regras sobre o que "fazer" e o que "não fazer" incluem tudo, desde a
oração que se reza para comer, e até mesmo como
se barbear de manhã. Hoje em dia, grande parte desses mandamentos não
podem ser seguidos, até mesmo pelos judeus mais ortodoxos mesmo depois
da destruição do Segundo Templo, embora eles ainda tenham um importante
significado religioso. Mesmo para os judeus
não-tradicionais que compõem a maioria dos judeus modernos, estas leis
ainda determinam o seu modo de vida. Os ensinamentos transmitidos
através das gerações determinam assuntos relacionados tanto a
nascimentos como a mortes, a casamentos como a divórcios,
bem como as festas religiosas que são festejadas e os códigos morais que
são respeitados.
Agora, com estes fatos, podemos começar a compreender e apreciar a incrível história dos cripto-judeus (marranos).
Costumes dos Cripto-judeus
A
Inquisição espanhola foi incansável
em seus esforços em perseguir e exterminar qualquer resquício da prática
judaica entre os cripto-judeus, a fim de formar um Estado puramente
cristão. Os oficiais da Inquisição analisavam, frequentemente, os
recém-convertidos para verificar se eles tinham circuncidado
seus recém-nascidos. Eles enviaram espiões para descobrir se eles se
reuniam aos sábados para rezar, o sábado judaico, ou se eles estavam
celebrando feriados judaicos, como Páscoa ou Yom Kippur. Eles muitas
vezes forçavam os judeus suspeitos a comer carne de
porco em público como uma forma de provar se eles eram ou não
verdadeiros "Conversos".
Assim, os cripto-judeus, que não estavam dispostos a abandonar a sua fé baseada em valores,
rituais
e tradições, reagiram de uma forma ainda mais secreta , o que
significou que todo o processo de prática religiosa teve que ser
transformado. Isto incluiu orações, feriados, escrituras e costumes.
Os feriados religiosos se modificaram durante a Inquisição espanhola. O feriado judaico mais sagrado é o Yom Kippur. Durante
este feriado, os judeus jejuam por 24 horas, enquanto eles
pedem perdão a Deus. Em vez
de rezar durante todo o dia, os cripto-judeus rezariam somente por
algumas horas. E para esconder o fato de que eles estavam em jejum, eles
colocavam um palito na boca, a fim de enganar os cristãos quando eles
saíam às
ruas.
O
feriado judaico da Páscoa também foi conservado de uma maneira
diferente. Normalmente, o feriado começa com dois "Seders"
(refeições) durante os quais é contada a história da fuga dos judeus do
Egito, depois de décadas de escravidão. Os cripto-judeus podiam
fortemente se identificar com esta história de libertação, já que eles
também se sentiam escravizados pelos inquisidores.
Depois dos Seders é proibido comer pão fermentado durante 1 semana. Os
cripto-judeus começaram sem a leitura da história da Páscoa.
Durante
esta semana de observação, muitos cripto-judeus decidiram jejuar,
porque eles tinham se acostumado a jejuar durante
feriados judaicos. Como os médicos judeus costumavam prescrever "matzo"
(pão ázimo) aos cristãos com problemas digestivos, durante a semana da
Páscoa, os judeus, muitas vezes, se queixaram de dores no estômago para
justificar o uso da "matzá". Hoje na América
Latina, algumas famílias comem pão sem fermento durante a Quaresma, que
cai na mesma época da Páscoa.
A
tradição judaica de um Bar Mitzvah (a cerimônia que se celebra aos
meninos judeus quando atingem a idade de 13 anos, a
partir da qual eles são considerados responsáveis por seus atos morais e
religiosos) foi substituída para manter suas identidades ocultas. Na
idade de treze anos, a criança foi levada de lado e foi contada a
verdade sobre sua religião e as Leis de Moisés.
Eles
não podiam guardar livros judaicos ou materiais religiosos e, portanto,
tudo tinha que ser memorizado e transmitido
oralmente. Este fato, obviamente, causou um declínio no conhecimento
religioso através de cada geração. Os marranos tinham que professar sua
lealdade à Igreja Católica, que muitas vezes se envolveram com as
tarefas da igreja para ajudar a ocultar suas verdadeiras
identidades, e isso resultou em uma grande mistura de costumes judaicos e
cristãos.
Um
aspecto interessante da vida cripto-judaica foi o papel das mulheres.
As mulheres se tornaram líderes espirituais. Mulheres
que tinham um bom conhecimento e uma familiaridade com as rezas judaicas
conduziam os serviços de oração para confundir os inquisidores, uma vez
que este foi um trabalho normalmente executado por homens. De fato,
longo da história, tem sido demonstrado que
as mulheres foram aquelas que mais se recusaram a se assimilar e assim,
as mulheres cripto-judias desempenharam um papel importante na
manutenção da fé judaica e seus costumes.
Com
relação a língua hebraica, ela foi praticamente extinta. Os
cripto-judeus não poderiam se arriscar a serem escutados
falando ou escrevendo em hebraico. Por causa desse medo, todos os
vestígios do idioma hebraico, tanto o verbal como o escrito,
desapareceram nas últimas gerações dos cripto-judeus.
Era perigoso demais possuir um livro de orações judaicas em casa, entao, os cripto-judeus
memorizaram
as orações. O único texto que ainda poderiam usar era a Bíbla. Este foi
aprendido literalmente. Quanto às orações, a maioria delas eram
originais. Infelizmente
as orações originais haviam sido perdidas com o tempo e os cripto-judeus
foram forçados a criar suas próprias orações.
Porque
textos judaicos sagrados não poderiam ser usados, a comunidade
cripto-judaica criou seus próprios livros de oração,
um deles é chamado o "Manuscrito de Rebordelo" (Rebordelo é uma aldeia
distante na província de Trás-os-Montes em Portugal). Dentro deste livro
de orações manuscritas, haviam diferentes rezas para cada ocasião que
aparentemente datam do início do século XVIII.
O livro também contém uma lista de recomendações sobre como viver uma
vida ética.
O
casamento foi outro aspecto difícil da transformação cripto-judeu. A
primeira condição era que os cônjuges deveriam ser
judeus. Casamentos mixtos nunca foram uma opção. Os casais não poderiam
se casados por um rabino, então, eles se casavam na igreja e, em
seguida, eram abençoados por um rabino. O processo de casamento era
indispensável para os judeus, como era a sua única garantia
da continuação da sua religião.
Se um membro da comunidade falecia, um "minian" (um grupo de 10 homens judeus) se reuniam na casa da família do falecido,
o que fazia parecer que eles estavam apenas consolando os enlutados, como nas tradições de reza católica.
A alimentação foi outro problema para os cripto-judeus. Eles fizeram o máximo
para
manter sua alimentação "casher" (lei judaica que se refere a cada
aspecto do alimento desde a preparação até o consumo). Eles se recusaram
a comer carne de porco, cujo consumo está
proibido pelas leis judaicas-religiosas, e até contaram para seus filhos
que aqueles que comiam carne de porco seriam transformados em porcos.
O
cripto-judeus também tentaram preservar o Shabat. Eles tentaram não
cozinhar entre sexta-feira à noite e sábado à noite,
porque isso seria violar o sábado. Eles acendiam uma vela que ficava
acesa durante o sábado. A vela ficava escondida dentro de potes de
barro, para que a luz não pudesse ser vista do lado de fora.
Com respeito a tradição judaica sobre a caridade, os cripto-judeus davam caridade, dando atenção especial aos pobres da sua
própria comunidade, de acordo com a tradição judaica.
Mas
apesar de seus esforços e boas intenções, eles tinham um problema
insuperável: sua conexão com o resto do mundo judaico
havia sido cortada. Sem acesso a livros judaicos, ou até mesmo a um
calendário judaico, tornou-se cada vez mais difícil lembrar de todas as
orações e as leis. E haviam muitos mandamentos que eles não poderiam
realizar ou foram forçados a transgredir, porque
o perigo era muito grande. Para compensar, ao longo do tempo, os
cripto-judeus começaram a desenvolver sua própria cultura, integrando
orações e costumes especiais.
O despertar dos cripto-judeus
Nos
últimos anos, uma imagem nova e fascinante surgiu desses descendentes
de judeus secretos que vivem hoje como cristãos,
mas mantém as tradições de suas famílias que são indicações
inequivocamente claras de suas origens judaicas. Apesar de que muitas
gerações viveram em sigilo em relação ao seu verdadeiro patrimônio e
apesar da assimilação ao cristianismo na América Latina, Espanha
e Portugal, muitas famílias ainda mantém resíduos das práticas do
judaismo, mesmo aqueles descendentes que ainda não têm a menor idéia
sobre sua identidade judaica.
Na
verdade, às vezes as primeiras indicações de ascendência judaica de um
indivíduo são os seus costumes familiares. Não
ter tido qualquer contacto prévio com o costume judeu, a descoberta
desta herança familiar misteriosa, com base em práticas de preservação
judaísmo espanhol medieval, pode ser uma revelação chocante,
concentrando-se na identidade espiritual e despertando uma
nova perspectiva pessoal fazendo embarcar em uma jornada muito pessoal.
Até recentemente, revelações sobre essas práticas têm sido esporádicas e medidas. Até hoje, os descendentes desses judeus
em países de idiomas espanhol e portugues instintivamente
hesitam sobre compartilhar a
história sobre a sua verdadeira herança judaica. No entanto, nos últimos
anos devido ao acesso amplo e generalizado à Internet, permitindo
pesquisas individuais, mas abrangentes dos confins do próprio lar,
rapidamente estas informações se transformam em um
fluxo de conhecimentos compartilhados e depoimentos. (Para compartilhar
sua história de família ....)
Histórias
sobre famílias que até hoje acendem velas na noite de sexta-feira,
circuncidam os filhos recém-nascidos, comem
pão achatado fino (matzá) na Páscoa, usam nomes bíblicos e têm tradições
familiares de não comer porco ou trabalhar no sábado, estão aparecendo
cada vez mais. Alimentos judaicos, tradições orais, cultura, e secredo,
costumes religiosos estão aparecendo hoje
no folclore, língua, hábitos e práticas dos descendentes e ultimamente,
estão sendo identificados como os costumes judaicos. Em sua maior parte,
essas atividades são consideradas únicas tradições familiares e membros
da família não as concedem como uma identidade
judaica, até que esses fatos são claramente divulgados.
Muitos agora estão juntando os pedaços de sua própria família, peça por peça, pista após pista.
Alguns
têm memórias compartilhadas de ter ouvido um avô ou tio ou tia
dizer-lhes "Somos Judios", enquanto outras famílias
continuam a manter em segredo sua ascendência ou simplesmente esqueceram
o seu passado. Em algumas famílias este segredo profundo só é revelado
quando algum familiar ou parente curioso empreende uma busca minuciosa
em seu passado e começa a entrevistar seus
parentes.
Alguns manifestaram interesse em aprender mais sobre o judaísmo moderno, visando a sua propria integração ao judaísmo. Outros
se sentem confortáveis em sua filiação religiosa, mas estão
intrigados e curiosos sobre
a sua história. Independentemente da natureza da sua jornada pessoal, se
você também gostaria de saber mais sobre este assunto estamos
fornecendo alguns links na
página http://nameyourroots.com/articles/costumes-conversos-judeus
.








