Notícia.:
Bahia pode ter artefato judeu do séc. 17
Construção para banhos rituais no Pelourinho seria registro material mais antigo da prática da religião judaica na América Portuguesa
Alexandre Gonçalves, O Estado de S.Paulo
Pesquisadores encontraram o que pode ser o registro
material mais antigo da prática da religião judaica na América
Portuguesa. Em um hotel do Pelourinho, em Salvador (BA), eles
identificaram uma mikvé - local onde são realizados banhos rituais com o
sentido de purificação e renovação (mais informações nesta página).
A historiadora Suzana Severs, do grupo de pesquisa responsável
pela descoberta, explica que a mikvé deve ter a mesma idade do casarão
onde foi construída, datado da segunda metade do século 17. Se a
hipótese for confirmada, ela é quase tão antiga quanto Kahal Zur Israel,
a primeira sinagoga das Américas, localizada no Recife e construída na
primeira metade do século 17.
Ao contrário da sinagoga pernambucana - edificada durante o
período de tolerância religiosa da dominação holandesa -, a mikvé baiana
surgiu provavelmente sob as sombras da perseguição desencadeada pela
Inquisição portuguesa, cujos ecos chegaram à Colônia com a instalação do
tribunal na Bahia.
Em 1497, d. Manuel I, rei de Portugal, havia convertido "por
decreto" todos os judeus do reino ao catolicismo. Naturalmente, um
número considerável manteve, em segredo, as práticas religiosas
judaicas.
Em 1536, foi criado o tribunal da Inquisição em Lisboa,
intrinsecamente unido à Coroa portuguesa. Sua principal função era
investigar a sinceridade da "conversão" dos cristãos-novos - como
ficaram conhecidos os judeus que, ao menos formalmente, tiveram de
abraçar a fé cristã.
"Pretendiam descobrir o que essas pessoas pensavam, sentiam e
faziam", afirma Anita Novinsky, pesquisadora da Universidade de São
Paulo (USP) e uma das maiores especialistas brasileiras em
cristãos-novos.
Criptojudeus. Um cenário hostil na Europa
obrigou muitos cristãos-novos a se lançarem ao mar rumo ao continente
americano. "Podemos dizer com segurança que eles foram responsáveis pelo
primeiro impulso econômico e criativo do Brasil Colônia", aponta Anita.
"Os plantadores de cana-de-açúcar pioneiros do Nordeste eram
cristãos-novos."
Suzana explica que alguns cristãos-novos aderiram ao
catolicismo. Outros se afastaram de qualquer prática religiosa. Mas
houve quem mantivesse as tradições judaicas na sua vida privada: eram os
chamados criptojudeus.
Os pesquisadores sugerem que o primeiro dono do casarão do
Pelourinho pode ter sido um criptojudeu que, mesmo durante a perseguição
inquisitorial, realizava práticas religiosas judaicas a poucos metros
da tradicional Igreja de São Francisco. Não se descarta a hipótese de o
local ter servido como uma "sinagoga da resistência".
"Determinamos os proprietários do casarão até a primeira metade
do século 19", afirma Suzana, que participou da incursão pelos registros
cartoriais e arquivos históricos de Salvador. "Já temos hipóteses para
os donos no século 18. Mas queremos chegar ao século 17 para desvendar a
história do homem que edificou a mikvé."
Acaso. Em 2008, um judeu ortodoxo hospedado no
Hotel Villa Bahia procurou o gerente do local, o francês Bruno Guinard,
para perguntar qual seria o uso original daquela construção tão
singular, "que possuía todos os pré-requisitos para funcionar como uma
mikvé", até mesmo uma caixa d'água para armazenar a água da chuva.
Guinard ouvira de um historiador que aquele equipamento era usado para
"banhos portugueses".
Na mesma época, a nutricionista baiana Berta Wainstein visitou o
local e conversou com Guinard, sugerindo também a possibilidade de se
tratar de uma mikvé. Surgiu assim o desejo de criar um grupo de pesquisa
para confirmar o caráter judaico da construção.
Berta afirma que, além de determinar a identidade do construtor
da mikvé, o grupo procura apoio para criar o primeiro centro de
referência em estudos sobre cristãos-novos no País.
O centro poderia ser instalado em uma casa situada nos fundos do
hotel. Dessa forma, seria possível contar com um acesso para visitantes
que desejam ver a mikvé sem atrapalhar o cotidiano dos hóspedes.
A mikvé foi restaurada e está sendo conservada pelo hotel, contudo não está aberta para a visitação pública.
Clique na Imagem para amplia-la








