|
||||||||||||
| Provavelmente, as inúmeras
perseguições e as conversões forçadas que
marcaram a história dos judeus na Europa fizeram com que o Kol
Nidrei se enraizasse cada vez mais na liturgia do Dia do Perdão.
Com a migração dos marranos para vários países
da Europa é provável que o costume tenha sido incluso, em
muitas comunidades, na liturgia de Yom Kipur. Vários Gaonim do
período mencionam em seus escritos o fato de o texto ser recitado
em inúmeros países, inclusive em Eretz Israel. No século
IX já fazia parte do primeiro livro de orações completo,
o Seder do Rav Amram Gaon. Alguns sábios chegaram a se pronunciar contra a inclusão do Kol Nidrei em Yom Kipur, pois temiam que a possibilidade de anular juramentos de forma coletiva diminuísse aos olhos dos judeus a importância e gravidade dos juramentos. Até o final do século X, a maioria das comunidades européias já o havia incluído em sua liturgia de Yom Kipur. Somente na Babilônia, onde estavam as academias de Sura e Pumbedita, o texto não foi adotado. Provavelmente, como estas comunidades viviam em paz, o costume lhes parecia estranho. O Kol Nidrei adquiriu um significado ainda maior quando, em 1391, reiniciaram-se na Espanha as perseguições aos judeus. Estas culminaram em 1492 com o Édito de Expulsão. As opções dadas aos judeus ibéricos era conversão ao cristianismo, exílio ou morte. Para os judeus que ficaram na Península Ibérica a única saída era esconder seu judaísmo do olho atento da Inquisição. Apesar do grave perigo, em Yom Kipur muitos destes marranos se reuniam secretamente para anular juramentos e pedir o perdão Divino por não terem ainda voltado à fé judaica, apesar de suas promessas. Durante séculos o Kol Nidrei foi causa de interpretações enganosas que levaram a acusações malévolas contra os judeus. Estes eram acusados de usar o ritual para se desfazer de todo tipo de encargos e compromissos. Se os juramentos podiam ser anulados, di-ziam seus perseguidores, então não se podia confiar na palavra de um judeu. Em 1240, Rabi Yechiel, de Paris, desafiou o bispo da cidade, na presença do rei da França e da rainha de Castilha, a um debate sobre o assunto. Venceu-o demonstrando publicamente que o Talmud afirmava que um judeu não pode quebrar uma promessa feita ao próximo. Mas isto não foi suficiente para impedir que o Kol Nidrei fosse usado nos séculos seguintes para acusar judeus de má fé. Em 1656, Cromwell discutiu o assunto do Kol Nidrei novamente com o Rabi Menasse Ben Israel. Este último havia encaminhado ao governante da Inglaterra uma petição através da qual os judeus pediam permissão para voltar para a Inglaterra, de onde haviam sido expulsos em 1290. Cromwell recusou a petição. O ritual O Kol Nidrei tem início com o chazan posicionando-se à frente da Arca Sagrada. Ele se coloca no papel de Shaliach Tzibur – mensageiro da congregação – para “defender” a causa de seus “clientes” perante D’us, nosso Juiz. Dois homens ou mais da congregação, cada um com um rolo de Torá em suas mãos, posicionam-se ao seu lado. É um tribunal simbólico onde todos agem de acordo com o “processo legal” para a anulação de votos estabelecidos por nossos sábios. De maneira solene, envoltos em talit, os três representantes da congregação declaram: “Pela autoridade que nos foi dada pela Corte Superior e pela autoridade que nos foi dada pela Corte Inferior, com a permissão de D’us – Abençoado seja Ele – e com a permissão desta sagrada congregação, consideramos lícito rezar com os transgressores”. Após estas palavras o chazan entoa o Kol Nidrei. “Todos os votos, as proibições, os juramentos, as anátemas, as interdições, os empenhos e os compromissos que a nós mesmos impusermos, seja por voto solene, juramento, anátema ou auto-proibição, a partir deste Yom Kipur até o próximo Yom Kipur, que vem a nós em paz – todos eles são declarados sem valor e considerados completamente nulos, não ocorridos e inexistentes. Nossos votos não são votos, nossos compromissos não são compromissos e nossos juramentos não são juramentos.” O texto revela a inquietação do ser humano ao se dar conta dos votos que não foram cumpridos, das obrigações quem sabe esquecidas, de valores e lealdades traídas. Mas a melodia parece afirmar o desejo de refazer seu caminho e reparar o mal feito. O texto deve ser repetido três vezes, pois importantes orações são repetidas três vezes para dar ênfase às palavras. Segundo o Rabi Saadia Gaon, o Kol Nidrei deve ser repetido três vezes por causa da forma como deve ser pronunciado: primeiramente é entoado com a voz de um servo que se aproxima pela primeira vez do trono de seu soberano, a quem teme; na segunda vez, ele já reúne confiança e fala mais forte; na terceira, sua voz é mais forte, por já estar familiarizado com a presença do Rei.Machzor de Yom Kipur, Editora Sêfer Apesar do texto do Kol Nidrei ser sempre o mesmo, tanto o ritual como sua antiga melodia variam de acordo com as tradições de cada comunidade. Nas comunidades asquenazitas o tom é grave e sério. Leon Tostoi, quando ouviu o Kol Nidrei pela primeira vez, numa sinagoga da Rússia, ficou profundamente tocado e a descreveu como a mais triste, mas também a mais elevada de todas as melodias que já ouvira. “Era uma melodia que ecoava a história do grande martírio de uma nação atingida pelo sofrimento”. O músico Beethoven usou um trecho melódico do Kol Nidrei nos oito compassos iniciais de um de seus últimos quartetos (Mi Menor opus 131), para dar uma atmosfera mais grave à sua obra. As comunidades sírias costumam retirar todos os sefarim da Arca Sagrada levando-os ao redor da sinagoga. Rabi Yitzhak Luria, o Arizal, salientava a importância da tradição de retirar os sefarim para que todos as pessoas presentes pudessem ter a oportunidade de beijá-los. É considerado uma grande honra e privilégio segurar os rolos da Torá durante o Kol Nidrei. Privilégio ainda maior segurar o primeiro, chamado de Sefer Kol Nidrei. Conclusão O Kol Nidrei tem ensinado a gerações de judeus o poder da palavra. Nos primeiros instantes do Dia do Perdão, ao iniciar nossa “limpeza espiritual”, somos lembrados que a palavra é uma arma poderosa. Se bem usada, pode reconfortar, construir; mas usada de forma inadequada ou leviana pode destruir. Esta atinge sua maior força, seu maior poder quando o próprio homem se oferece como “garantia” de sua palavra. Ao entoar o Kol Nidrei somos levados a perceber, mais uma vez, que a palavra de um homem é sagrada. E mais ainda, que ao respeitá-la estaremos respeitando tanto os outros em nossa volta como a nós mesmos. Kol Nidrei nos ensina também o poder do arrependimento. Se nos lamentarmos e pedirmos perdão com sinceridade, D’us perdoará nossas falhas e nos livrará do peso opressivo de nossa culpa. Bibliografia: Yom Kipur - Its Significance, Laws and Prayers - Art Scholl Mesorah Series Rabbi Nosson Schaman Fonte:(Revista Morashá) http://www.morasha.com.br | ||||||||||||








