A Influência dos Judeus "Cristãos-Novos" na Cultura Mineira
Rita Miranda Soares
Graduada em Letras: Português/Francês pela FAFIC
O
povo brasileiro é fruto e fonte criadora de pluralidade cultural. A
presença de outros povos em território nacional ajudou a moldar algumas
de nossas principais características culturais, desde o desembarque de
Cabral na terra que viria a ser o Brasil.
Essa
diversidade deve ser reconhecida, respeitada e valorizada. Pois um povo
que não conhece suas raízes, é um povo sem identidade.
Pensando
nisso, procuramos resgatar nesse estudo a influência da cultura judaica
sefaradim na civilização brasileira, especialmente em Minas Gerais, que
é o tema central da nossa pesquisa. Consideramos importantíssimo
marcarmos essa influência e nos lembrarmos da vertente judaica junto com
o índio, junto com o negro, junto com o português, e com vários outros
povos – italianos, sírios e libaneses, poloneses, japoneses, etc. – que
aqui vieram compartilhar conosco da sua cultura.
Resgatar
esses valores é resgatar a própria cultura mineira, a qual está
intrinsecamente ligada à tradição milenar desse povo. Tradição que se
viu camuflada, esquecida em muitas casas, simplesmente para que as
famílias pudessem fugir às mãos de ferro da Inquisição. Quantos jovens e
crianças não tiveram de renegar seu sangue, sua crença, sua família?
Quantos homens e mulheres não se viram obrigados a deixar seus lares,
suas terras e seus parentes, jogados numa aventura de futuro incerto, em
frágeis naus, a fim de virem para uma terra estranha, sem saber o que
os aguardava?!
A
Península Ibérica (Portugal e Espanha) contribuiu, de maneira
avassaladora, durante a Inquisição que durou cerca de três séculos, se
não para o genocídio, pelo menos para o abafamento de boa parte da
cultura, religião e arte de um povo de tão rica formação humanística.
A assimilação deles em nossa cultura foi imposta pela Inquisição, sob pena de expatriação ou morte, deixando muitas características judaicas no substrato dos brasileiros.
O
estudo não pretende ser histórico nem profundo, apenas aborda e defende
que muitos costumes, hábitos ou tradições do interior mineiro sofreram
influência marcante dos judeus sefaraditas portugueses que vieram para
Minas fugindo da Inquisição no nordeste brasileiro.
Após
o batismo forçado pela Inquisição de Portugal, esses judeus ficaram
conhecidos como “cristãos-novos”, para diferenciá-los dos
“cristãos-velhos”. Muitos continuaram a praticar a sua religião
secretamente e, por isso, eram constantemente vigiados e denunciados ao
“Santo Ofício” como judaizantes; estes tinham todos os seus bens
confiscados, além de viverem humilhados e confinados naquele país, isso
quando não eram torturados e queimados vivos nas fogueiras.
O
descobrimento do Brasil em 1500 foi uma porta que se abriu para esse
povo perseguido. Milhares de “cristãos-novos” vieram para o Brasil na
época da colonização já em 1503 (GUIMARÃES, 1999).
Mais
tarde, com a atuação do Tribunal do Santo Ofício na Bahia em 1591/93, e
em Pernambuco em 1593/95 e novamente na Bahia em 1618, os judeus que, a
princípio, se encontravam nessas duas capitanias, dispersaram-se por
todo o Brasil, principalmente para o Sul e Sudeste (LOURENÇO, 1995).
Com a descoberta do ouro nas capitanias de Minas em fins do século XVII, ocorre um movimento em direção ao território mineiro.
Segundo a historiadora FERNANDES (2000), a maioria era formada por
cristãos-novos que se estabeleceram na região, em atividades econômicas e
no comércio.
Mas
que marcas eles deixaram na formação do povo mineiro? Que costumes,
hábitos ou tradições podemos identificar em Minas como sofrendo
influência daqueles judeus cristãos-novos? Que influência exerceram na
formação da nossa identidade?
A
este grupo étnico que ajudou a povoar o Brasil nos três primeiros
séculos do descobrimento e a seus descendentes que ora representa o
grosso da população brasileira, devemos esta grande similitude com os
sefaradins ibéricos. A alma profundamente quebrantada pela fé em D’us, o
espírito pacífico e de bom humor, um povo amante da paz com uma grande
capacidade para viver e sair de situações difíceis e adversidades
seculares – o famoso “jeitinho” brasileiro - , uma tendência
universalista para as coisas
filosóficas, as habilidades com o comércio, etc. Em suma, um povo
apaixonado e obstinado, uma raça bonita e sábia, apesar de seus defeitos
e mazelas.
Analisando
estas e outras características, percebe-se claramente que o povo do
interior do estado de Minas Gerais parece ser o retrato mais fiel dos
judeus portugueses do século dezesseis a dezoito que vieram povoar este
país.
O
temperamento do homem dessas regiões, seu aspecto físico, os costumes
em vigor até bem pouco tempo, herdados dos antepassados povoadores,
indicam influência preponderante desses judeus ibéricos. Também os
registros de nomes demonstram uma concentração de judeus cristãos-novos
nessa região do interior mineiro, proporcionalmente entre as mais densas
do mundo.
O
cancioneiro popular de Minas exprime bem o espírito mineiro. Aqui as
coisas são feitas sem pressa, para durar – o tempo pouco importa.
Diz-se
que o mineiro é “fechado” como sua terra. Esse fechamento traduz-se
numa sobriedade evidenciada no seu modo de ser – no comer, no vestir, no
falar.
O mineiro escuta muito mais do que fala e não demonstra facilmente seus sentimentos. “Não desperdiça gestos, como não desperdiça nada” (Alceu Amoroso Lima).
Certamente
aprendemos com nossos antepassados a não desperdiçar, pois seus bens
tinham sido espoliados pela Inquisição e vieram para o Brasil sem nada
para aqui construírem suas vidas. Daí o conceito de que o mineiro é
“pão-duro”, em outras palavras, “econômico”.
O
mineiro “calado” aprendeu com seus ancestrais a esconder seus
sentimentos e crenças para não ser vítima dos “deduradores” ou “espiões”
da Inquisição. Tanto é assim, que quando alguém está fazendo perguntas
demais, diz-se que ele está inquirindo muito (inquisição = ato ou efeito
de inquirir).
E
o tradicionalismo mineiro? Quando se fala na “tradicional família
mineira” associa-se logo a idéia a uma atitude ultraconservadora. O
sistema patriarcal mineiro tem suas raízes nos colonizadores
cristãos-novos vindos na época da mineração – aqui chegaram com seus
valores tradicionais intactos, plantando-os em Minas.
O
mineiro é triste, repete-se constantemente. De uma tristeza guardada,
que transparece em sua arte e só se denuncia sutilmente, em gestos
discretos. De onde viria essa tristeza?
Talvez
da saudade que se perdeu no tempo. Saudade que os judeus sentiram
quando deixaram a terra onde viveram por tantos séculos – a península
ibérica – e emigraram para o Brasil. Também da tristeza de se saber
perseguido e vigiado por onde quer que vá.
É
em Minas também que se encontram as primeiras expressões de
nacionalidade e de justiça. E de reivindicações pelos direitos
adquiridos, presentes nos motins e revoltas do século XVIII. A
circulação do ouro e de diamantes levava, em seu bojo, a circulação das
idéias, suscitando rebeliões que, hoje, são reconhecidas como sementes
de nossa independência nacional e de nosso acesso à modernidade.
A
sucessão de rebeliões impressionou o governador, conde de Assumar, que,
queixando-se ao rei pela sublevação de Felipe dos Santos, Vila Rica
(1720), afirma: “O espírito de rebelião é quase uma segunda natureza das
gentes de Minas” (FERNANDES, 2000).
O que era rebelião para o reino português, significava justiça para o povo mineiro.
Foi
a dominação e a insubmissão, a coragem e o medo, a desconfiança e a
luta, a saudade e a esperança, a discrição e o apego à liberdade, que
fizeram um povo mineiro profundamente ligado ao seu berço, à sua gente e
à sua terra.
A
descoberta do ouro em Minas que, segundo alguns autores se deveu ao
cristão-novo Antônio Rodrigues Arzão, em 1693, acarretou forte movimento
migratório, vindo da própria Colônia ou da Metrópole para o interior.
Na
primeira metade do século XVIII, segundo Neusa FERNANDES (2000),
estima-se que a corrida do ouro levava para as Minas, oito a dez mil
pessoas por ano.
Em pouco tempo, a capitania de Minas Gerais tornou-se a mais populosa da Colônia, suplantando a da Bahia e a do Rio de Janeiro.
Vila
Rica, uma das primeiras vilas surgidas, foi o centro comercial da
capitania, onde atuaram a maioria dos cristãos-novos processados pela
Inquisição em Minas. No meado do século, uma grande comunidade judaica
tentou fundar uma irmandade clandestina na cidade.
O historiador Elias José LOURENÇO (1995, p. 73-77) nos conta com maior clareza este fato e narra os costumes que ele encontrou ali e em outras regiões próximas:
“Em
Vila Rica, meados do século dezoito, havia uma comunidade judaica muito
bem disfarçada, que tentou organizar-se numa falsa irmandade, com o
título de “fiéis de Deus”.
Como se sabe, assim se intitulavam os seguidores do profeta Eliseu, que
em meio da idolatria de Israel, proclamava sua fidelidade a Yaveh.
Chegaram a ocupar uma casa junto da atual capela do Bom Jesus dos
Perdões, então em construção, e enganaram o bispo de Mariana, que
somente depois de muito tempo desconfiou dessa confraria e resolveu
dissolvê-la. Esse e outros fatos, que seria longo enumerar, explicam os
costumes que ainda encontrei em minha infância e mocidade e que perduram
no interior de Minas.[...] Os filhos e netos de judeus, perdida a
lembrança religiosa, adotaram a prevenção contra os do seu sangue e
acometiam contra eles com frases que os depreciavam. [...] O sujeito
econômico, “unha de fome”, como se dizia, era apelidado de somítico,
isto é, semítico. Fazer sofrer alguém, prejudicar, ofender, etc., era
“judiar”... Afirma-se que quando um judeu disfarçado, ou seja, marrano,
estava para morrer, a fim de evitar que novamente ele se revelasse
adepto da lei de Moisés, comprometendo os demais, era logo chamado o “abafador”,
isto é, um sujeito que tinha por missão estrangular habilmente o
doente. Isso permaneceu em nossos costumes com os conhecidos personagens
que “ajudavam a morrer”. Quando alguém definhava em moléstia longa,
diziam que “estava tão fraco que nem tinha força para morrer”. Chamando o
abafador, ele afastava do quarto do doente as pessoas da família,
encostava a porta e começava a operação. Punha um crucifixo nas mãos do
doente, passava os braços pelas costas e aplicava o joelho contra o
tórax... À medida que ia aumentando a compressão contra o peito do
moribundo, asfixiando-o, em voz alta, para ser ouvido de fora, ia
dizendo: - Vamos, meu filho! Nosso senhor está esperando! Quando o
paciente exalava o último suspiro, o abafador compunha o corpo, chamava
as pessoas da família e lhes comunicava que o fulano havia morrido “como
um passarinho”, isto é, suavemente [...] Esses homens que “ajudavam a
morrer” ainda existem em distantes povoados de nosso interior. “Lamparina”
é um ritual judaico e persiste no interior do estado. Ainda de uso
doméstico, acendia-se a lamparina de azeite no quarto da parturiente
porque a criança, antes de ser batizada ou passar pela circuncisão, não
pode ficar no escuro. [...]. Aos sábados, acendia-se diante do oratório
uma vela, que deveria arder até o fim do dia, costume judaico que se
cristianizou [...]; os sábados eram ainda os dias de vestir “roupa lavada”.
O sinal de hospitalidade mais sensível, revelador de especial atenção
para com um viajante, e a primeira coisa a fazer antes de qualquer
alimento, era mandar-lhe ao aposento uma bacia de água morna para lavar
os pés. Recordação milenar dos desertos da Ásia, transformada em
cortesia. Em Minas, em São Paulo e creio que em quase todo o Brasil de
povoamento antigo, ninguém comia carne de animal de sangue quente que
não tivesse sido “sangrado”(ex.: a galinha).
Este uso é de uma importância transcendente para o judeu, e como tal
ficou arraigado em seus descendentes como costume irrevogável.[...]. Do
mesmo modo, apesar da riqueza piscosa de nossos rios, ela nunca
constituiu base de alimento para nossas populações, salvo as
forçadamente ribeirinhas. Era colossal o consumo de peixe salgado que
vinha para Minas, em lombo de burro, no período colonial, substituído
depois pelo bacalhau. É que os peixes mais abundantes em nossos rios são
“peixes de couro”, expressamente proibidos pelo livro de Levítico”.
Com
o passar do tempo, passando a febre do Eldorado, os cristãos-novos se
segregaram, por assim dizer, entre as montanhas de Minas, longe dos
litorais e portos marítimos, distantes de outras correntes migratórias,
dando ao povo mineiro peculiaridade étnica e cultural com
características bastante definidas.
No
começo, famílias como os Leões, os Fortes, os Henriques, os Carneiros,
os Campos, etc., chegaram a constituir povoados, verdadeiros “guetos”,
que ainda hoje se reconhecem por não terem capelas em suas ruínas, em
constraste com os fundados por cristãos-velhos, onde a igreja era uma
das primeiras edificações (LEAL, 2000).
Em
Paracatú, Serro Frio, Sabará e imediações e em Pitanguí tinham suas
maiores aglomerações. Eram numerosos também nos arraiais que cercam Ouro
Preto e Mariana e ao longo do caminho do Rio Grande e da Bahia. Havia,
porém, cristãos-novos espalhados por todo o território mineiro: nas
estradas, nas entradas das vilas e nos caminhos de “ir-e-vir”.
Considerando-se o trabalho desbravador que
esses cristãos-novos realizaram e os movimentos comerciais que
inovaram, pode-se dizer que a eles se deve a realização dos primeiros
contratos, a criação dos primeiros empregos, promovendo negócios e
instrumentos que revertiam para a Coroa portuguesa, ficando, porém os
lucros e parte da riqueza em mãos dos moradores.
A
historiadora Neusa FERNANDES (2000) nos relata que a terceira década do
século XVIII foi o período em que a ação inquisitorial tomou maior
impulso em Minas. Num espaço de dez anos, foram presos em Minas cerca de
30 cristãos-novos, todos acusados de judaísmo.
Ao
ler os processos analisados pela historiadora em seu livro, percebemos
que muitos deles foram criados na religião católica, até a idade de 11,
12, 13, 19 ou mesmo 20 anos, quando então abraçavam o judaísmo,
persuadidos ou influenciados pela avó, ou pela mãe. Sabemos
que no judaísmo é a mulher quem educa as crianças, cabendo-lhe a tarefa
de ensinar-lhes todas as tradições e costumes. Esse hábito está ainda
presente nas famílias mineiras, onde à mulher cabe a tarefa de educar os
filhos, discipliná-los e iniciá-los na religião, ficando o marido
apenas com a incumbência de trabalhar e suprir a casa.
Além
disso, a “religião de verniz” ou o “ir para a igreja sem convicção
interior”, atribuída pelo clero católico aos brasileiros em geral, é
originária, talvez, do comportamento dos cristãos-novos que, por
circunstâncias ou displicência, ficavam anos embrenhados nas matas, sem
comungar e confessar. A posição espiritual do brasileiro, que se mantém
relativamente indiferente nas discussões religiosas, pode ser fruto do
conturbado ambiente sócio-religioso-colonial (MIZRAHI, 1999) da época.
Os
três séculos de perseguição, movidos pela Inquisição aos cristãos-novos
luso-brasileiros levaram o grupo ao inconformismo. Vivendo numa
“marginalidade interior”, “homem dividido” segundo a historiadora Anita
Novinsky, temendo sempre possíveis denúncias, o cristão-novo tornou-se
permeável e atraído para idéias e movimentos de oposição ( Como prova a
Inconfidência Mineira).
O
cristão-novo se sentia em permanente transgressão. Não era católico nem
judeu. Praticava um dualismo religioso, apresentando-se exteriormente
como cristão-novo e praticando os ritos judaicos dentro de casa ou da
prisão, sempre com a preocupação de se ocultar para não despertar
suspeitas nos vizinhos.
Essa situação é bem expressa no romance “A saga do marrano” (AGUINIS, 1996):
“A
nós foi aplicada e continuam a aplicar a violência. O efeito é trágico:
somos católicos na aparência para sobreviver na carne, e somos judeus
por dentro, para sobreviver no espírito” .
A
influência mais forte dessa ambigüidade, desse dualismo, talvez esteja
no “fechamento dos mineiros”, no seu jeito calado, na sua resistência em
falar das suas crenças mais íntimas.
Guardados
nas montanhas de Minas, estão até hoje muitos traços dos cristãos-novos
e seus descendentes, expressos no que se chama hoje de: conservadorismo
mineiro, política mineira ao pé do ouvido, pão-durismo mineiro, humor
mineiro, desconfiança mineira, o jeito amaneirador do povo mineiro, a
superação de obstáculos, o apego à justiça, enfim, toda “mineirice” se
identifica muito com os judeus portugueses dos séculos XVI, XVII e
XVIII.
A
seguir, procuramos listar alguns costumes judaicos incorporados à
tradição mineira, a maioria do livro do LEAL (2000) , outros tirados da
informação verbal e da tradição oral:
Passar a mão na cabeça: isto é, relevar, perdoar, acarinhar, ignorar uma falta de alguém. É a bênção judaica.
Sefardana: Para o historiador Augusto de Lima, a expressão insultuosa de Sefardana é deturpação intencional dos nomes “Sefarad”[1][1] e “Sefaradins”.
Jurar pelo eterno descanso de um morto querido: juro pela alma do meu pai, ou da minha mãe, e assim por diante. É resíduo de um rito judaico.
Deus te crie: ante o espirro de uma criança. Herança da frase hebraica – Hayim Tovim.
Amuletos: usado
muito no interior, os signos de Salomão ou de David (a estrela de seis
pontas) e até mesmo nas porteiras e muros das casas, embora para o judeu
não seja amuleto, mas seu significado foi deturpado entre os
descendentes assimilados.
Varrer a casa: da porta para dentro das casas, costume arraigado até os dias de hoje.
Passar mel na boca: quando
da circuncisão, o Rabino passa o mel na boca da criança para evitar o
choro. Daí a origem da expressão: “Passar mel na boca de fulano”.
Siza: vem do hebraico “Sizah”, quando vai pagar o imposto. Pagar a siza.
Massada: palavra
muito usada pelos mineiros para explicar uma tragédia: “foi uma
massada”. A fortaleza de Massada, perto do Mar Morto, foi destruída
pelos romanos nos anos 70 d.C., quando pereceram mais de 800 judeus,
segundo afirma Flávio Josefo.
Lavar os mortos: largamente usado no interior das Minas Gerais. Usado ainda, em algumas regiões. Está bem desaparecido.
Para o santo:
o hábito sertanejo de, antes de beber, derramar uma parte do cálice,
tem raízes no rito hebraico milenar de reservar, na festa do pessach (páscoa), copo de vinho para o profeta Elias (representando o Messias que ainda virá).
Punhado de terra: costume de jogar terra no caixão quando ele é descido na sepultura.
Mezuras: fazer mezuras, reverências. Talvez venha do Mezuzah[2][2] hebraico colocado nas portas, ao qual os judeus antes de entrar fazem uma reverência.
Carapuça: a
expressão “fulano de tal pôs a carapuça”, ou “esta carapuça não serve
para mim”, vem dos tempos da Inquisição, quando o réu era obrigado a
colocar uma carapuça sobre a cabeça, assumindo a culpa..
Judiar: vem dos tempos da Inquisição, em que se maltratavam e perseguiam os judeus – significa atormentar e torturar os judeus.
Mesa de mineiro tem gaveta para esconder a comida quando chega visita: esse
costume, conhecido dos mineiros e relacionado à sovinice, tem outra
raiz. É o costume que tinham os cristãos-novos e que passou aos seus
descendentes, de guardar a comida que estavam comendo quando chegava um
visitante – normalmente um cristão-velho. Para isso, as mesas da copa
tinham gavetas. A raiz desse costume é que muitos cristãos-novos, apesar
do batismo forçado, continuavam praticando secretamente a sua religião.
E no judaísmo, a comida deve ser kasher, ou seja, a comida recomendada pela Torah, na
qual existem alimentos proibidos aos judeus – Levíticos 11 – como, por
exemplo, a carne de porco, peixe sem escama, etc. Dentro desse preceito,
há receitas tipicamente judaicas. E se um cristão-velho chegasse de
repente à casa e visse essa comida típica, fatalmente o cristão-novo
seria reconhecido e denunciado. Por isso, eles guardavam o que estavam
comendo nas gavetas, e ofereciam outra coisa ao visitante, como o queijo
minas, por exemplo. Esta é a raiz desse costume, que muitos mineiros
até brincam a respeito, mas que não está relacionado à sovinice e sim ao
medo da delação (MENDA, 2000).[3][3]
Lenda da Verruga:
como se sabe, o dia no judaísmo começa na véspera. Então, o “shabat” –
descanso judaico no Sábado, começa na véspera com o nascimento da
primeira estrela. Se um judeu apontasse para o céu quando visse a
primeira estrela para anunciar o início da festa do Shabat, como
cristão-novo ele estaria se denunciando. O adulto poderia se controlar,
mas o que se diria para as crianças? “- Não aponta que se nasce
verruga”. Era a única maneira de poder controlá-las, para que a família
não fosse descoberta e perseguida pela Inquisição (MENDA, 2000).
Ficaram a ver navios:
era a época de ouro da Península Ibérica. O rei Dom Manuel precisava
dos judeus portugueses, pois eram toda a classe média e toda a
mão-de-obra, além da influência intelectual. Se Portugal os expulsasse
logo como fez a Espanha, o país passaria por uma crise terrível. Então o
rei fingiu marcar uma data de expulsão, que era a Páscoa. No dia
marcado, estavam todos os judeus no porto esperando os navios que não
vieram. Todos foram convertidos e batizados à força, em pé. Daí a
expressão: “ficaram a ver navios”. O rei então declarou: não há mais
judeus em Portugal, são todos cristãos (cristãos-novos). Era 1492.
Durante mais ou menos 30 anos eles continuaram praticando o judaísmo por
debaixo do pano, às escondidas, mas com tolerância portuguesa, até a
chegada da Inquisição. Com a Inquisição, veio a vigilância, a
perseguição, a intolerância, e foi aí que muitos vieram para o Brasil
fugindo dela(MENDA, 2000).
Além
dos costumes e expressões mencionadas acima, há um outro aspecto que
gostaríamos de mencionar, embora seja tema para outro estudo mais amplo.
É a questão dos sobrenomes.
Até a época de Napoleão, o judeu não tinha sobrenome: era “fulano filho de fulano” - não
tinha identidade civil. Com a conversão forçada, eles têm de assumir um
sobrenome e adotam nomes de famílias tradicionais cristãs, ou nome de
um local, ou de uma árvore, ou da sua profissão, ou de um animal, ou de
um português ilustre.
Os
arquivos da Inquisição da Torre do Tombo, em Lisboa, pesquisados por
WIZNITZER (1996, p.35), traz os nomes de 25 judaizantes brasileiros
processados na Bahia, dos quais citaremos apenas alguns sobrenomes:
Antunes, Costa, Duarte, Gonçalves, Fernandes, Lopes, Mendes, Miranda,
Nunes, Rois, Souza, Teixeira, Ulhoa e outros.
Outros
sobrenomes de pessoas processadas no Brasil pela Inquisição,
devidamente documentados, são (GUIMARÃES, 1999): Abreu, Andrade, Barros,
Borges, Cardozo, Carvalho, Coelho, Carneiro, Cunha, Ferreira, Figueira,
Gomes, Henriques, Leão, Lemos, Machado, Miranda, Moura, Nogueira,
Oliva, Oliveira, Paes, Pinheiro, Pires, Ramos, Rios, Reis, Serra, Sylva,
Simões, Soares, Tavares, Telles, Valle, Vaz, etc.
Acompanhando
a história dessas famílias, nota-se que grande parte delas se dirigia
em direção ao Sul, fixando residência nos estados do Rio de Janeiro e
Minas Gerais. Outros subiam em direção ao norte do país, especialmente
Pernambuco e Pará (GUIMARÃES,1999). Esses estados também foram muito
influenciados por uma série de costumes judaicos, que não abordaremos
nesse estudo. Ressaltamos que não podemos afirmar que todo brasileiro,
cujo sobrenome conste desta lista seja necessariamente descendente de
judeus portugueses. Para saber-se ao certo precisaria de uma pesquisa
mais ampla, estudando a árvore genealógica das famílias, o que pode ser
feito com base nos registros disponíveis nos cartórios.
Apesar
disso, o que queremos frisar é que há uma grande concentração desses
sobrenomes em Minas (e outros que não citamos por questão de espaço),
mostrando a descendência dos cristãos-novos. A influência histórica
judaica-sefardita é inegável.
A
história da formação do povo mineiro e do povo brasileiro em geral,
estará mutilada até que se faça um profundo estudo sobre os
cristãos-novos e seus descendentes da Península Ibérica, e da grande
influência que exerceram na vida do povo mineiro e brasileiro espalhado
por esse imenso país.
Essa
história está muito próxima de nossos olhos, de nosso tato, de nossos
costumes, portanto é muito reveladora e com fatos muito evidentes. Basta
escrevê-la sem tendências e nem preconceitos.
Orgulhemo-nos,
como mineiros, da nossa herança cultural. Afinal, um povo para crescer,
precisa da sua identidade, e para um povo conhecer sua identidade,
precisa conhecer e resgatar suas raízes o mais profundo que puder.
Fonte: ensinandodesião.org.com
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